04 Maio 2009

OBRIGATÓRIO: PERCA DO NILO








Há quem lhe chame Cherne, mas o seu verdadeiro nome é Perca do Nilo, que vem do Lago Vitória na Tanzânia, onde nasce o rio Nilo
A Perca do Nilo foi ali introduzida nos anos 60, predador voraz aniquilou todos as outras espécies de peixes indígenas. Nasce então uma florescente indústria que exporta om sucesso este peixe para todo o hemisfério norte.
A pesca massiva deste peixe fez com que fosse deixada a pesca artesanal e as populações que rodeiam o Lago Vitória passaram a depender em exclusivo deste trabalho, que como sempre são explorados continuando a viver na miséria.
Sei que estamos em crise e que este peixe é barato, mas é bom que tenhamos a noção que vem de mão de obra escrava.
Pescadores, políticos, pilotos russos, prostitutas, industriais e comissários europeus são os actores de um drama que ultrapassa as fronteiras do país africano. No céu, enormes aviões de carga da ex-União Soviética formam um ballet incessante, abrindo a porta a outro tipo de comércio: a compra e venda de armas. "O Pesadelo de Darwin", realizado por Hubert Sauper, ganhou o Prémio de Melhor Documentário nos Prémios Europeus do Cinema e foi ainda premiado nos festivais de Veneza, Belfort, Copenhaga, Montréal, Paris, Chicago, Salónica, Oslo, México, Angers.

In Pesadelo de Darwin







06 Abril 2009

AQUELA JANELA VIRADA PARA O MAR









Dois batentes abertos, a luz que entra, as sombras que se abrem, o olhar que se estende para lá do momento tentando descortinar o horizonte.
Nunca sentira os olhos presos, sempre tivera a sorte de ter janelas desafogadas, onde espraiava o olhar.
Tinha uma amiga que dizia quando o horizonte pegava quase com o infinito
- estica os olhos, não os deixes habituarem-se a quatro paredes, estica os olhos o mais que possas. Sempre se ria a imaginar os olhos a serem esticados, enquanto deixava o olhar brincar até ao quase infinito
A água de onde viemos, que somos, líquido precioso sem o qual não sobrevivíamos, água primordial, onde ainda hoje vivemos dançamos, cantamos
Janela em troca de experiências, traz o cheiro da maresia, o piar das gaivotas, a despedida ao fim do dia de bandos de pardais e de andorinhas
traz o dançar de ramos mais finos e das folhas, quando o vento passa assobiando baixinho como em piropo à beleza que o rodeia
leva o calor acolhedor do que está dentro que se mistura a tantos outros
leva o reflexo de vidas que deixam rastos cinzentos, rosas ou azuis, conforme a janela por onde passam
leva luz, daquela janela virada para o mar


02 Abril 2009

CHAPÉU DE PALHA

Auguste Rodin




Estavam as três sentadas no muro cinzento de pedra antiga, tão antiga como o resto da casa, que bordejava o lago, quando foi tirada a fotografia em dia sufocante de Setembro, em que as sombras das altas árvores, sobreviventes de um ciclone vinte anos antes, faziam puzzles de luz.
Há uma lassidão mostrada pela objectiva, a quem conheça a vivacidade da mais nova, naquele meio gesto captado, lento, de pôr o cabelo atrás da orelha, mostrando o rosto afogueado
As três tinham o rosto sombreado pelos chapéus de palha de aba larga, mas mesmo assim se podia notar o olhar vivo, traquina e terno da mais nova cujo chapéu inclinado sobre a testa morena, descaía sobre a orelha, olhando para as duas mais velhas que a miravam com ar misto de ternura e orgulho
Como um chapéu de palha é sensual, parecia que diziam as três gerações ali representadas, a do meio de cabeça bem erguida, como se a tristeza nunca lhe tivesse batido à porta, senhora de uma beleza que não confessa a idade. A mais velha de uma serenidade exultante, fina, cabeça um pouco de lado como quem espreita o momento.
Três chapéus tão diferentes em três cabeças ainda mais diferentes, três personalidades de cambiantes parecidos, três forças da natureza unidas por um chapéu de palha, unidas pelo mesmo sorriso cúmplice que lhes vem de dentro lhes chega aos olhos, quase nada na boca
O momento retratado era feliz.
Era esse o momento que ficaria

30 Março 2009

ÖKO-BALL







A Mariz, tem dois blogs. Um de cariz espiritual, o SOU PÓ E LUZ e outro de cariz informativo, o AJUDE-PARTICIPE.
Foi neste último que tomei conhecimento da existência de um produto chamado ÖKO-BALL.
A Mariz ainda não o tinha experimentado, mas como tem três anos de garantia, e achei que podia poupar bastante dinheiro, resolvi experimentar.
Telefonei para lá e disseram-me que com a água do Norte do país, até nisto eles são melhores, que tem eficácia a 100%, mas com a água do centro e do sul de Portugal se tem de adicionar uma colher de sopa de detergente e no caso de gostarmos que a roupa saia da máquina com um qualquer cheiro também de deveria pôr uma colher de sopa de amaciador mas, frisou a senhora bem, nunca mais do que isso.
Estou francamente contente. Lavei uma toalha de mesa, azul escura, cheia de nódoas, porque há netos que ainda entornam de vez em quando a comida, a 40º só com uma colher de sopa de detergente e saíram todas as nódoas.
A Öko-Ball custa 39€, serve para 1500 lavagens de máquina, o que dá uma média de uma máquina diária durante cinco anos.
Na minha casa, estará paga mais ao menos ao fim de três meses.
Convém dizer que não sou dona nem trabalho de algum modo para ou com esta empresa, que também não tenho amigos ou familiares de qualquer modo ligados a este produto ou empresa e que não ganho nada com isto a não ser o facto de ir poupar dinheiro por a ter comprado.
Para saberem mais pormenores é ir ao blog da Mariz, ou ir ao site da Öko-Ball que está nos contactos

Contactos

Morada:
Zona Industrial Ligeira, Lote 11
4 Caminhos
3150-260 Condeixa-a-Nova
Coimbra
Portugal

E-mail: info@okoball.com (activar Java script)
Telefone: 707 20 10 35
Fax: (00351) 239946225
Telemóvel: (00351) 936539036
Site: http://www.okoball.com
Skype: okoball.com

RECOMEÇO





Estou contente por voltar, porque gosto deste blog, porque tinha saudades.
Sem obrigações de post em dias certos

07 Janeiro 2009

Jogos







ESTES JOGOS SÃO PORTUGUESES!!!!

FAÇAM O FAVOR DE ALINHAR!!!
DÊEM UMA ESPREITADELA

30 Junho 2008

ADEUS

Adeus, sempre foi uma palavra grande demais para mim;
encerra o mundo todo e toda a vida
nunca a direi, pelo menos completamente.
Sei que voltarei, mas para um outro espaço e num outro tempo, recomeçando do nada como me agrada, para já fico-me por aqui.
obrigado a todos

28 Junho 2008

BOM FIM DE SEMANA




É talvez a Artista Plástica que mais gosto neste tipo de arte, a Instalação.

JOANA VASCONCELOS



Coração Independente - Vermelho
há ainda o Laranja


Coração Independente - Preto



Dorothy
feito com tachos e panelas











Ilha dos Amores







A Noiva,
feita em aço e tampões

Deixo-vos o link, pois vale a pena ir espreitar e navegar, não deixem de clicar no botão que explica quais os materiais com que fez a peça mostrada

27 Junho 2008

Mulher II





Fotografia de José Marafona


Ela tem atravessado a “série varandas” sozinha e com amigas, sem o seu amor e com ele
Ela é nada, mas é também o rio que corre para a foz, que se enleia, que tem lodos fundos, onde por vezes se perde, que não consegue fazer o caminho a direito, apesar de tanto se esforçar, mas tem sabido contornar as curvas e segue sempre o caminho que determinou
é a sedutora e a sedução, mas é também aquela por quem passam sem ver, sem olhar a sua cara nem darem por ela
a que faz parar o transito, mas também a que querem atropelar, dê lá por onde der
Ela é o vazio e o cansaço, mas é também quem tem esperança, quem luta e dá a cara, que não desiste, venha daí o mal que vier, ou o bem
é a que não é mãe, que chora os filhos que não teve, mas é também a que tem netos e que ri alegre para os filhos que trouxe no ventre
a que está sozinha, ou a que se separou, mas é também a que sempre amou, a que quis viver acompanhada por um amor que tem ao seu lado
Ela é cruel e fraca, mas é também a generosa que tudo dá e se entrega, que tem a força interior de se manter de pé no meio das tempestades
é a indiferente e a frieza feita gente, mas é também a que tem uma sensibilidade de corda de violino plangente que comove e faz chorar, que a todos acolhe dentro de si,
a rebelde que tudo e todos põe em causa, mas também a que se dobra e a todos aceita a sua maneira de ser.
a que se quer vingar da vida e deste e daquele, mas também a que nada tem de rancorosa, que sempre vai desculpando e que no dia seguinte já não lembra do que foi dito ou feito
Ela é complicada, mas é também transparente como o mar que vem devagarinho beijar a praia
é a que vira a cara para o lado que não quer ver o que está à sua frente, mas é também a que olha de frente, mesmo que sofra com esse olhar e que tudo tenta fazer para caminhos aplainar
a que tem tristezas sem fim e a alma magoada, mas também a que está alegre e que em tudo vê o melhor que a vida tem e que sempre traz um sorriso na cara, que ri às gargalhadas, que das tripas faz coração sem ninguém saber o que lhe vai dentro
Ela é a que não tem nome, a que não é ninguém e és tu e sou eu e é todas as mulheres que ao longo da vida se têm batido pelo amor
Ela é MULHER

26 Junho 2008

A CASA NA ARRÁBIDA

clicar para aumentar, vale a pena


Ela tinha uma casa no meio das areias da Arrábida.
Tinha tido licença para fazer uma casa de madeira, parecida com as dos pescadores, mas mais tarde refê-la por dentro com cimento e ainda escavou uma cave, onde existiam três quartos, com pequenas janelas e casa de banho
Em cima uma sala comum, outra casa de banho, a cozinha com todas as comodidades, visto terem gerador para a eletricidade e um depósito de água, para poder ter água canalizada. O frigorífico era a gás
Para beber e cozinhar é que tinham de levar garrafões de água. Dezenas deles.
Era a sua paixão e costumava convidar amigos.
A primeira vez que Marta lá foi com o filho de três anos, chegaram quase de noite ao Portinho, numa sexta-feira, dia de chuva intensa.
O pescador disse que não as podia levar no seu barco, porque não teria luz suficiente para a vinda e que era impossível com aquele temporal fazer a viagem de volta.
Sem outra solução à vista, meteram-se ao caminho
Marta levou dois garrafões de cinco litros de água, os dois saco de fim de semana e o puto ao lado, com o chapéu de chuva aberto.
Isabel, levou dois garrafões e a comida para o jantar, já feita.
O caminho longo fez-se a pé, por entre o arvoredo que ladeava a praia, sem se ver sequer onde se punham os pés.
Ao fim de uma meia-hora bem puxada lá chegaram encharcadas á casa que cheirava a mofo, ligou-se o gerador e esperou-se que a água aquecesse no cilindro para um banho recuperador, o que só aconteceu três horas mais tarde.
O jantar foram bifes panados, acompanhados de arroz de tomate e uma salvadora sopa de feijão bem quentinha que só se comeu no fim para ficarem aconchegadinhos.
A casa não havia meio de aquecer.
O miúdo, que tinha ido de galochas não se tinha molhado, e às dez da noite estava na cama.
Elas à uma da manhã ainda estavam conversando, no meio de relâmpagos e do bramido do mar.
Levaram velas para os quartos, porque se acendessem a luz a meio da noite o gerador arrancava e acordava quem estivesse a dormir.
Acordaram tarde no dia seguinte e nem queriam acreditar na beleza de dia, com um sol de Março radioso e quente.
Marta, que na véspera, nada tinha visto à chegada de tal maneira estava encharcada, a tiritar e preocupada com o filho, quando abriu a porta da rua e viu que areia pegava com a casa, que o primeiro passo que desse era já na areia grossa dessa Arrábida de encantamento, teve a sensação de não ser ela a estar na praia, mas a praia a estar nela, a sensação de pertença.
Voltou lá muitas vezes e sempre essa sensação se entranhava nela, porta areia, praia e mar
Durante todo esse fim de semana ninguém se calçou a não ser quando se punha o Sol e ainda se conseguiu tomar banho naquele mar gelado, apesar de tudo espectacular de águas transparentes e a serra a elevar-se na areia.
A única pessoa que se viu foi o pescador que vinha todos os dias trazer o peixe acabado de pescar e quantas vezes as ameijoas acabadas de apanhar e que as foi buscar no Domingo ao fim da tarde, para as levar de barco até ao Portinho
A casa já não existe, esse tempo também não, mas existe a memória dela e a memória do que se fez com vinte e tal anos.

25 Junho 2008

MAIS DO QUE UM SITE




Mandaram-me e acho que vale a pena, por isso aqui fica

JOST. COM

A VARANDA





Fotografia de Isabel Mendes Ferreira



Resolveram ir fazer-lhe uma surpresa, por estarem mortinhas de curiosidade, desde que souberam que já tinha recomeçado a ir para a sua varanda.
No último jantar das quintas, aparecera bem disposta e parecia que mais leve.
Fizeram-lhe perguntas e ela respondera que tinha voltado à sua varanda.
- e ainda te cheira ao Rodrigo, ou não, perguntou Matilde com sorriso matreiro
Ele tinha lá aparecido acompanhado, mas que ela também estava, mas ainda se ria do olhar admirado que lhe lançou
- por um homem? perguntou Madalena tão admirada como todas as outras
Tinha algumas vezes a companhia de uma pessoa, de um homem, disse sorrindo, que tinha conhecido há perto de um ano e que tinha ganho a sua admiração e mais tarde o seu coração.
Rira-se quando vira a cara delas e dissera-lhes que se chamava Filipe e que ainda era cedo para o apresentar a um grupo de “lobos”, principalmente no que a ela dizia respeito.
- sabes como todos nos preocupamos contigo, acrescentou Sara; mas ele apareceu lá com outra?
Era um espaço público e que no fundo tinha lá ido para lhe mostrar que a vida continuava, o que era verdade também para ela.

Mal lá entraram viram-na de costas, o tal Filipe de frente a afagar-lhe a mão e de olhos ternos a olhá-la
Matilde que ia à frente voltou-se para as outras com olhar admirativo e começaram os cochichos de como era bonito o Filipe e Marta disse que o cabelo prateado dele lhe fazia inveja.
Entraram na varanda rindo
Ela virou-se como já as esperasse e sorriu-lhes, ele levantou-se, apontando para cada uma, Marta! Matilde! Sara! Rita! Vieram as quatro!
- mostraste as nossa fotografias? Perguntou Rita admirada
- descreveu-vos, acrescentou Filipe e pelos vistos muito bem. Não tive a mínima dúvida de quem eram.
Já as mesas se juntavam e D. Amélia corria solícita e sempre sorridente, para os pedidos fazer. Acabaram todos a comer o mesmo: salmonetes grelhados
Acabado o almoço, Filipe pôs-se em pé despedindo-se delas e dizendo com ar trocista, que de certeza ainda por lá ficariam para pôr a conversa em dia.
Já tinha dado meia volta quando de repente se virou e lhes perguntou
- passei no exame?
Estalaram as gargalhadas, mas foi Marta que lhe disse que ficasse descansado, tinha tido nota alta, no pouco que o tinham conhecido. Tinham gostado do seu humor. Mas que já agora que lhe dissesse como conseguia ter prateados os cabelos brancos, que eram a sua inveja
Foi a vez dele dar uma alegre gargalhada, percebendo que tinha sido aceite e acrescentou em tom de segredo, que não fazia nada a não ser lavar a cabeça com um normal champô.
Ficaram-se por ali a tarde inteira e ninguém falou do Filipe enquanto ela rindo não lhes disse
- então as “lobas” vieram saber de mim!
- estavas com tantos segredinhos, disse Rita
- espicaçaste a nossa curiosidade, acrescentou Marta. Que homem lindo!
- Vá, conta a história toda...ia dizendo Matilde, tendo sido interrompida por Sara
- calada há mais de um ano...não tens confiança em nós, disse meio magoada
- nada disso, primeiro foi um conhecimento feito aqui e só de algum tempo para cá chegou ao meu coração. Não havia nada a contar que as meninas iam fazer um romance onde ainda não havia.
É mais do que bonito, apesar de a minha atenção ter sido chamada por esse facto, mas é uma ternura, é viúvo sem filhos....
- ora bem! acrescentou Marta, encontraste o homem ideal
- ...andou cá e lá, com esta e aquela, mas penso que nos entendemos, que gosta de mim e eu gosto dele
- agora temos que te telefonar, quando cá quisermos vir, disse Rita com alguma nostalgia
- livrem-se! Este continua a ser o meu poiso, e ele nem sempre pode vir almoçar e mesmo que venha é só almoçar, temos mais vida para além desta varanda e vocês nunca estão a mais.
No jantar da próxima quinta-feira, se houver, porque há o jogo Espanha Rússia, o Filipe acompanha-me, tínhamos acabado de combinar antes de chegarem
- era giro ser lá em casa, disse Matilde, assim víamos todos o jogo e ele, pobre coitado, não se ia sentir tão observado.
Ela sorriu-lhe agradecida.
Não há nada como juntar os homens à volta do futebol.


24 Junho 2008

MÁQUINA DE COSTURA





Fotofrafia de JOSÉ BOLDT


Estou aqui a olhar para ela sabendo que deveria estar a dar ao pedal, aproveitando a luz que nela incide como sempre faço, aproveitando para poupar na conta da eletricidade, mas hoje francamente não me apetece e para ser completamente honesta cada vez há menos trabalho e fico-me a olhar esta beleza desta janela que sempre a iluminou da mesma maneira e que nunca tive tempo de contemplar e vão-me passando pela ideia todos as peças de roupa que pelas minhas mãos foram cosidas nessa máquina que contava o meu tempo, sempre esgotado, porque as clientes sempre apressadas queriam os vestidos feitos para os poderem estrear ou as saias apertadas ou alargadas, estas em maioria, que as clientes sempre iam aumentando de peso conforme iam subindo na vida, nunca percebi o porquê das mulheres terem tão pouco cuidado depois de se casarem
a maioria, que havia também aquelas que iam emagrecendo com a vida dura que encontravam pela frente.
Ainda as vejo uma por uma, desmanchar as costuras, a alinhavar para as ter prontas para as provas, fazer emendas e voltar a coser e o pedal sempre a dar a dar, para a frente e para trás, parte a agulha é da pressa ou da impaciência, ou das duas coisa e pode ser também da raiva que estava em mim, perdia tempo que era ouro, arrastava a cadeira para ir buscar outra agulha enfiava a linha e a impaciência ou outra coisa qualquer a fazer com que não consiga enfiar à primeira, molhava a ponta da linha na boca e tentar mais uma vez, enquanto a máquina obediente às mãos e aos pés ia cosendo bocados da minha vida com pedaços das vidas das clientes, que sempre se descaiam durante as provas, mal sabendo o quanto diziam nas poucas palavras trocadas e adivinhava-lhes os humores e os que lhes ia dentro, conforme a impaciência ou a boa vontade.
Voltava a coser e naquela saia ia a preocupação pelas notas da filha que não estudava ou pela reunião com a professora a que não era possível ir...mas quando vinham as provas, aquelas roupas onde tinha cosido as preocupações, eram sempre as que tinham o mais belo cair, por ficarem as peças mais pesadas
mas havia dias em que a alegria imperava por o meu marido ter chegado e parecia que as peças não ficavam tão bem, tinha que desmanchar mais vezes e dava comigo a pensar que a leveza da felicidade que era cosida juntamente com as bainhas ou com as costuras de lado, não se coadunava com a costura, que poderia não estar certa talvez fosse só a cabeça a estar noutro lado
mas o certo é que desde que ele não mais voltou me fiz melhor costureira, as peças eram as mais belas, principalmente aquelas onde foram cosidas lágrimas e fungadelas

Lembro-me particularmente de um vestido de seda rosa clarinho, feito para uma cliente de vinte anos, tão impaciente nas provas que nunca estava quieta, mas que naquele dia ao olhar para mim me deu um beijo na face e ficou tão quietinha como adivinhando que a vida não me corria de feição.
Foi nesse vestido que foram cosidas as lágrimas mais amargas e que ficou tão lindo e ela parecia uma leve pena quando a saia rodava.
Veio cá hoje e trazia o vestido no braço e eu pensei que o queria modificar
- D. Guilhermina, venho cá entregar-lhe este vestido, que não sei se por acaso de lembrará de o ter feito e o bonito que ele ainda hoje está.
- claro que me lembro dele, como poderia não me lembrar....a menina ficava tão bem com ele vestido. Fartou-se dele? sempre o podemos modificar que a seda é daquelas que já se não fazem...
- ah! lembra-se...é por isso mesmo que lho venho entregar. É seu. Não o quero modificar. É seu, agora.
Já lho devia ter entregue há mais tempo, mas nunca tive coragem de vir abrir feridas. É seu por direito.
- essa agora! A menina pagou-mo! Não tenho direito a nada.
- é o vestido que mais gosto, mas sabe não o consigo vestir, apesar de ser de seda leve e fluida pesa-me tanto nos ombros....cansa-me e sempre me lembro do dia da prova.....este vestido é seu.
Dou-lho como quem lhe entrega pedaços da sua vida e da minha, como recordação

Lá se foi ela, mais leve do que quando entrou e eu fiquei com o que de pior se passou na minha vida, reparando que as lágrimas ainda ali estavam cosidas em ponto apertado, como estava o meu coração nesse dia e fiquei admirada por alguém ter reparado no peso que o meu desgosto tinha posto numa peça de seda leve
Por isso ainda aqui estou a olhar a luz que entra pela janela incidindo na máquina que contava a minha vida e o meu tempo, cosendo bainhas e costuras de lado, mantas de retalhos de outras vidas juntas com as minhas.... a recordar, a contemplar a luz que sempre me iluminou e que nunca tive tempo para admirar


Nota: mais de aqui um pouco há na CASA COMUM a receita do melhor arroz de pato, pelo menos para mim

23 Junho 2008

WOMAN IS THE NIGGER OF THE WORLD



FOI-ME MANDADO PELO MEU FILHO MAIS VELHO, A QUEM AGRADEÇO.

OUÇAM, OUÇAM, OUÇAM, PORQUE A REALIDADE NO MUNDO CONTINUA A SER ESTA.
QUANTOS ANOS DEPOIS?
COMEÇA COM UMA ENTREVISTA




Woman is the nigger of the world,
Yes she is...think about it.
Woman is the nigger of the world,
Think about it...do something about it.
We make her paint her face and dance,
If she won't be a slave, we say that she don't love us,
If she's real, we say she's trying to be a man
While putting her down we pretend that she's above us,
Woman is the nigger of the world,
Yes she is
If you don't believe me,
Take a look at the one you're with
Woman is the slave of the slaves
Ah yeh...better scream about it.
We make her bear and raise our children,
And then we leave her flat for being a fat old mother hen
We tell her home is the only place she should be,
Then we complain that she's too unworldly to be our friend.
Woman is the nigger of the world,
Yes she is.
If you don't believe me, take a look at the one you're with.
Woman is the slave to the slaves
Yeh(think about it)
We insult her every day on TV
And wonder why she has no guts or confidence
When she's young we kill her will to be free,
While telling her not to be so smart we put her down for being
so dumb.
Woman is the nigger of the world
Yes she is
If you don't believe me, take a look at the one you're with.
Woman is the slave to the slaves.
Yes she is,
If you don't believe me, you better scream about it.
REPEAT:
We make her paint her face and dance...

O MOLHE

Fotografia de JOSÉ BOLDT


Gosto destes molhes sem fim, que não levam a lado nenhum, a não ser quando me meto no barco que a ele está agarrado e parto
Viagem sem princípio nem fim, por onde divago sem medo do que encontrarei, que tanto pode ser pesadelo, quando chego, como o mais belo dos paraísos, quando parto
Disso depende onde me leva o pensamento ou o sonho
Remo para longe da margem ao encontro da corrente deixando-me por ela levar e passado um tempo a corrente volta para trás e traz-me de volta. Dou quando muito uma remadela ou outra, só para me deixar ir pelo centro, que nunca gostei de andar pelas franjas das margens onde sempre me senti ancorado.
- Desculpe....mas ancorado também pode não ser mau....e a corrente pode voltar para trás, mas o rio não
- isso não interessa nada, que a força da corrente quando enche ou quando vaza é que nos leva para fora ou nos traz de volta, o rio é só o caminho para atingir o sonho que sempre me acompanha quando parto ou quando a maré enche, os pesadelos chegam quando tenho de atracar ao molhe que não acaba mais, que não leva a sítio nenhum mas que nos ancora e nos prende á terra. Os pesadelos só acontecem em terra, quando estamos ancorados incapazes de partir
- está a falar em sentido figurado
- não, não estou não senhora, estou a a falar da realidade, porque há muito quem parta que até diz que está a seguir os seus sonhos e que continua ancorado, que isto de sonhos e de partir nem toda a gente faz, mesmo quando julga que está a fazer. Não me estou a fazer explicar, pela sua cara...
- estava só a pensar....
- há sonhos tão pequeninos, tão mesquinhos que não são sonhos. Sonhos são sempre de gente de alma grande que sonham o impossível, e se entregam a eles como se fossem capaz de os atingir, senão não são sonhos, são objectivos. Deixe ver se me explico melhor. Querer ir apanhar peixe não é um sonho é um objectivo, mesmo que não apanhe hoje, posso sempre amanhã apanhar, agora quando vou pela corrente acima ou abaixo a pensar como era bonito fazer-me ao mar nesta barcaça e atingir o Põr-do-Sol ou o Arco-Iris isso já é sonhar por ser inatingível. Está a perceber a diferença
- a perceber estou, mas se acha que não é atingível
- se fosse não era sonho.....sei que é sonho, sei que inatingível, no entanto luto por o conseguir, embora não seja também coisa que se faça num dia, é tarefa para uma vida e eu sei, mas sei no fundo de mim, que mais cedo ou mais tarde hei de atingir o Pôr-do-Sol ou o Arco-Íris, apesar de saber que para as outros, pode ser impossível, mas para mim não é, ou então deixava de ser sonho
os outros, sempre que assim falo chamam-me louco, mas luto todos os dias por conseguir, é por isso que os pesadelos sempre vêm quando estou ancorado, quando não posso sonhar. Os meus companheiros sonham em pescar muito, trazer muito peixe, que também começa quase a ser impossível, vender muito e muito caro, ora isso depende dos outros e os sonhos só podem depender de nós próprios......

e agora vamos merendar aqui ao largo, enquanto esperamos que a maré inverta, que só falta mais um pouco. Trouxe pão feito pela mulher e petingas fritas, mas já das frescas....se calhar não gosta ou nunca comeu
- essa agora! petinga frita com pão, fazem parte da minhas boas memórias. Gosto imenso!
- já viu? já estamos a ir no sentido inverso
- agora que estamos a chegar, não me diga que vai ter pesadelos....
- quando estou ancorado há pouco tempo, os sonhos continuam, mas conforme o tempo vai passando o sonho começa a desaparecer e quanto mais pequeno é, mais os pesadelos aparecem
- e os pesadelos são difíceis de suportar?
- os pesadelos são dolorosos tal como a realidade, é por isso que preciso de partir, de ir para o largo
- mas não consegue sonhar em terra?
- Também consigo às vezes....mas está a ver, a realidade é a maior parte das vezes mais forte que o sonho, é âncora pesada que transforma a vida e tenho de me pirar se não quero ser engulido pela realidade. Tenho a impressão que a Senhora não percebeu nada, que estive para aqui a falar como quem fala para os seus botões, mas que a Senhora nada entendeu
- não, está enganado, percebi tudo. Vou daqui a pensar ou a sonhar como o Senhor diz. Hei de cá voltar para conversar outra vez consigo, acho que hoje aprendi muito.
Obrigado por um dia inesquecível. Um resto de boa-tarde para o Senhor!
- volte, volte sempre que queira. Uma Santa tarde para a Senhora

21 Junho 2008

A HIPOCRISIA E AS LEIS

Decidi colocar este email, mandado pela mesma Cris, do blog "Os meus Encantos", a mesma Cris que escreve poemas como o que editei hoje.

Para os vizinhos da Paula , não tenho palavras para os qualificar!
Devem ser dos que se consideram pessoas cívicas e educadas, que se calhar até dizem mal do país
Realmente o país não irá a lado nenhum com gentinha desta
A hipocrisia continua!!!!

Basta ser à nossa porta e já ninguém é educado, cívico ou um bom cidadão, simplesmente.
Os tribunais são feitos para quê, para quem?
pelo menos aqui fica o meu protesto, ao menos para os poder encher de vergonha!!!!






Boa tarde a todos,

Perdemos-nos tanta vez com insignificâncias, quando há problemas como este. Fiz questão de vos enviar. Este é um drama com se depara a minha Amiga.
O email reproduzido abaixo foi enviado à responsável do prédio da Paulinha, mãe dum menino com a Doença de Batten (está numa fase perfeitamente vegetativa, mas continua a ser sempre o nosso Joãozinho que tanto amamos!) e a minha Amiga, porque já se debate com este problema há mais de 14 anos, decidiu torná-lo público!
Por tudo, ocupem um pouco do vosso tempo e cliquem no link.
Eu deixei, propositadamente o email que a minha Querida Paulinha me enviou.
Há coisas que são inverosímeis mas que, CONTINUAM A ACONTECER!
Assim vai e É a M... deste Pais, perdoem-me a linguagem!

Há apoios a toxicodependentes, e sei lá que mais, mas para quem tem um filho com uma deficiência, as portas fecham-se, não se abrem!
Não vamos desistir de apoiar quem de facto, com todo o Amor, dignidade, MERECE.
Vamos mimá-los, porque merecem tudo e mais, porque são lindos, são todos tão nossos, todos tão nossos FILHOS!
Ainda que não se consigam manifestar, eles VIVEM, SIM, e, merecem, por tudo, o nosso abraço, o nosso apoio!

Beijo ou abraço a todos e a cada um de vós!

O link está no email mas, para quem não conseguir ler, porque as letras estão muito pequeninas, aqui fica:


http://www.youtube.com/watch?v=51aX4rcZJeI
Vossa,Cris


Decidi colocar no YouTube um vídeo demonstrativo de um problema com que me deparo há já alguns anos no meu prédio, a ausência de uma rampa de acessibilidade. Contactei as instituições competentes (Secretariado de Reabilitação,
Primeiro-Ministro, Presidente da República, etc.), inclusivamente os meios de comunicação social que o divulgaram, porém, o problema mantém-se, mesmo após a Câmara Municipal de Braga ter notificado o condomínio do prédio, em
2005, para que num prazo de 10 dias construíssem a rampa exigida por lei.Saturada de promessas atrás de promessas, constantemente "sem vislumbrar uma luz no fundo do túnel" e cansada de ouvir respostas como: "A rampa vai ser
um mamarracho" e "Aqui a lei não entra", resolvi tornar público este problema, para mostrar como a observância da lei não é para todos e, como, por exemplo, razões puramente estéticas (apontadas pelas pessoas que se colocam
contra a construção da rampa) podem afectar a vida das pessoas, independentemente da injustiça e da falta de bom senso que isso possa representar. Este é o link do vídeo:http://www.youtube.com/watch?v=51aX4rcZJeI
onde poderá ver o prédio e o que significa quando o meu filho João, portador da doença de Batten, necessita de se deslocar à clínica (no prédio ao lado)para uma consulta ou exame.Grata pela atenção
Paula Mendes
-- M. Paula França Macedo da Cunha MendesR. Prof. Machado Vilela 140 5ºc dto4715-045 BRAGA

20 Junho 2008

BOM FIM DE SEMANA







MARC CHAGAL


Para relembrar Poema da CRIS.
O link é para todo o blog da Cris, em vez de ser só para este post, por o seu blog merecer conhecido, TODO



Emoções...[minhas...]



E se eu hoje não falasse?

Se me lesses o pensamento,

Folheando-o,

Página por página,

Afagando-me as expressões?

Adorava poder ficar quieta,

Assim, sabes?

Imaginando-te,

Uma vez corpo, quente,

Cobrindo o meu,

Como um campo em Setembro,

Acabado de ceifar,

Por tão dourado!

Outra vez, essência,

Qual alma alva,

Que adoro tocar,

Cobrir de beijos,

Por tão ávida estar,

Apesar de te parecer quieta.

Por mais que queira,

Não consigo disfarçar

Este lado infantil que em mim existe…

Por isso te peço o inverosímil,

O querer parecer que te deixei,

Para que me rodeies,

Me persigas,

Me enchas de anseios,

Me digas para não te deixar…

Para que volte,

Mesmo que eu não fale,

Querendo permanecer calada.

E, eu volto, acredita!

Todas as vezes que te “fujo”

Eu volto!

Escondo-me nesta fantasia,

Neste toca e foge,

Que nos diferencia dos demais…

Ai como é mágica a sensação!

Como adoro que me envolvas,

Como quando me rodeias a cintura de esperanças!

Nessa altura,

Talvez até te falasse…

Dando voz ao pensamento,

Para que me ouvisses,

E pudesses apertar,

Com esse teu jeito,

O fecho do colar feito de olhares,

Adornando-me o desejo.

Mas não!

Hoje, esmiúço-te a vontade…

Calo-me,

Enquanto invades

Este turbilhão de coisas

Que me vão cá dentro,

Me adivinhas,

Me folheias,

Me lês,

Como se fosse um poema…

Quando não quiseres mais,

Quando pousares o livro,

Quando já tiveres fechado tudo,

Arrecadado esse teu jeito,

E te preparares para falar,

Vou colocar a minha mão nos teus lábios,

Vou calar-te,

Vou mexer-me um bocadinho,

Vou tapar com minhas mãos

Os teus olhos,

E vou dizer-te,

Que era capaz de te amar,

Muito mais, agora,

Que cheguei,

Que sou capaz de te sentir,

Por inteiro,

Como eu sei que tanto gostas!


NOTA: Hoje há Casa Comum, com Luis Maia

AMOR!





Dedicado ao "meu" e à CRISTINA RIBEIRO, que me deu o mote



Fotografia de LUÍS BRAVO
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Quero-te com esta mesma mansidão que existe na tranquilidade de uma praia vazia, debruçados
sobre a varanda de mãos dadas em silêncio, porque as palavras não são necessárias entre nós e às vezes não são suficientes para nos contarmos o que pela alma nos vai
Quero-te com esta promessa e luminosidade de um nascer de Sol neste fim de madrugada, que se entranha e nos faz sentir que a felicidade existe
Mas quero-te também com o desejo e a paixão de um sol escaldante do meio-dia em dia de verão, que nos queima a pele, que nos arrepia, vulcão vivo, incendiado, que para o alto atira a lava que escorre por nós e se espraia até à beira da água.
Quero-te quando baixinho há já só murmúrios, afagos e nos dizemos que o universo esteve ao alcance das nossas mãos, que por ele andámos e vimos as estrelas do meio-dia, incandescentes e a lua cheia para nós brilhou
Quero-te também com a exaltação de um pôr-de-sol, promessa de mais um dia de rubros na água refletidos, que sabemos, por estarmos juntos, ser a nossa condição
Quero-te quando a noite vem devagar marulhar aos nossos pés e nela entramos juntos, mas com sonhos próprios e a liberdade de os concretizar.
Quero-te, como te quero....

19 Junho 2008

AMPULHETA


OUÇAM ENQUANTO ESTIVEREM A LER E DEPOIS, PORQUE VALE A PENA, CONTINUEM A OUVIR, SE PARA AÍ ESTIVEREM VIRADOS


Esta imagem foi roubado do blog do PAULO e impressionou-me



Vladimir Pavjuk
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O tempo escorre-me entre os dedos e não encontro maneira de o parar sabendo que ampulheta é imparável, que não perdoa o tempo que assim se escoa, que não sei quanto nos é dado.
Mas quando tomo consciência que a minha vida é um dos grãos que a ampulheta tem dentro, a questão vira outra
o meu tempo nada vale quando comparado com todos os outros e vejo quem se quer agarrar sem o conseguir escoando-se pelo ralo abaixo e se transforma na inversão do tempo, ali ele pára
Há os que vão antes do tempo porque o que lhes é dado acham ser tempo a mais, mas se vir bem a questão, a ampulheta só deixa passar os que já o esgotaram e que eu julgo ser antes de tempo....ali vai a criancinha acabada de nascer e pergunto-me se tivesse nascido noutro lugar se a ampulheta a teria deixado passar, ou se o tempo que lhe foi dado não seria mais, do aqueles miseráveis minutos e então o ter nascido naquele lugar poder ter ou não, algum significado, ou então é a minha boa consciência que prefere assim pensar, por não poder a todos socorrer e não querer viver com mais esse peso nas costas
mas está ali um velhinho muito velhinho que já nem percebe bem se está ou se deixa de estar e por ali anda esperando pelo seu tempo e sempre me pergunto por que será que irá a criança e o velhinho ainda ali estará, ou se não poderiam estar os dois, ou o porquê de dar a ampulheta tão pouco tempo a quem acabou de nascer

Mas estou aqui nesta amálgama de vidas e embora vire a cara para o lado, fica-me o sabor amargo de assistir ao que não quero
ouço gritos daqueles que não querem partir de nenhum jeito, quase empurrados por os que querem ficar nem que seja só mais um instante e sinto-me dividida sem saber o que hei-de querer, que também não faz muita diferença que aqui dentro quando tenho por breves instantes, felizmente, a consciência do escoar do tempo, fico sem saber se a hora está marcada, ou se nos é dado o poder de lutar por mais uns segundos.
Mas aquele que ali está agarrado à borda da taça onde se faz a miscelânea já está a ser sugado pelo pé, e a sua luta não sei quanto tempo demorará e penso se fosse comigo se não teria vontade de me deixar ir, que há os que vão sem um ai como se fosse uma benção deixar-se escoar
se o tempo estará tão contado de que me valerá lutar ou tentar passar desapercebida e fico voltada para o determinismo por achar que é muito mais confortável entregar-me ao tempo e deixá-lo actuar conforme queira, do que estar para aqui a lutar....
No entanto o maldito do instinto de sobrevivência já me faz encolher mais um pouco como se me servisse para alguma coisa, enquanto ouço os gritos de mais um que vai pelo ralo abaixo, já com o pé de um outro na cabeça, que a usa para poder subir e mais uma vez se agarrar à borda esquecendo-se que o poder se sucção é maior do que a sua força e aquele outro que esperneia enquanto eu sinto que ainda não estou a ser sugada e fico parada a pensar nestas coisas deixando que o tempo escorra pelos meus dedos, por mim abaixo e mais uma vez viro a cara, que isto é um tormento estar a pensar quem poderá ir primeiro, porque bem me lembro que quando nasceu de mim vida pensei que estava a dar a morte também.
A consciência de ali estar vai desaparecendo deixando-me um ligeiro mal estar, mas já virada para a vida, mas sem saber como reagirei no momento em que sentir a primeira sucção, que apesar de a não sentir, o tempo que não perdoa já está em acção desde o primeiro grito que no mundo lancei.